Dicas para se tornar um Mestre de RPG criativo e imbatível – Por Jaime Cancela

“O narrador precisa ter confiança em si e a confiança do grupo.”

Conduzir uma partida de RPG de mesa pode ser um feito heroico, lembrado para todo o sempre pelos jogadores, ou se transformar em uma experiência negativa que pode espantar para sempre interessados no assunto. O bom Mestre de RPG deve estar atento à melhor forma de conduzir uma aventura ou campanha e estar aberto a aprender e variar conhecimentos e estilo.

Para ajudar narradores iniciantes ou aqueles que buscam maneiras de aperfeiçoar as jornadas épicas de seus heróis, o PopGeeks procurou Jaime Daniel Rodríguez Cancela, profissional experiente na realização de aventuras, workshops e atividades variadas ligadas aos jogos de interpretação.

Segue abaixo o breve bate papo com o mestre narrador.

PopGeeks – Da longa lista de preparativos, qual é o quesito mais importante para um Mestre de RPG na hora de criar uma aventura cativante para os jogadores?

Jaime Cancela – O BOM Mestre de RPG está sempre aprendendo. Mas um dos preparativos mais importantes, na minha opinião, é o contrato social. Entrar em um entendimento entre jogadores e mestre, deixando bem claro como será a aventura, qual o clima das histórias e o que os jogadores estão esperando. Esse tipo de conversa pode salvar campanhas. Não basta apenas informar o cenário e a regras, é preciso uma participação dos personagens e de suas histórias no mundo do jogo.

Além disso, uma boa conversa sobre o que os jogadores curtem ou não cria uma interação melhor entre os participantes da mesa. Há jogadores que não gostam de determinados assuntos ou comportamentos, principalmente se a aventura tratar de temas mais adultos como sexo ou violência. Uma conversa franca e sincera sobre o que acham divertido ou não em uma mesa cria um elo mais forte entre o grupo e faz com que os jogadores tenham mais confiança em seu mestre de jogo.

PopGeeks – Que tipo de informações e referências são importantes ou necessárias para a elaboração de uma boa aventura?

Jaime Cancela – Para proporcionar uma boa experiência de jogo, o narrador deve ter algum conhecimento sobre o cenário e os elementos que caracterizam a temática da aventura/campanha. Se a proposta é uma aventura steampunk, ele deve ter uma noção de que elementos compõe uma história desse tipo. Descobrir quais as expectativas dos jogadores também é importante. Se o mestre anuncia uma campanha de espionagem os jogadores esperam algo estilo James Bond ou como a HQ Jogos de Poder? Os jogadores serão de uma agência de espionagem real ou uma organização secreta supranacional?, e por aí vai.

PopGeeks – Para transformar a aventura em um grande acontecimento para os jogadores, que situações ou “ganchos” você considera fundamentais na dinâmica do Mestre durante o jogo?

Jaime Cancela – A participação dos jogadores e de suas histórias. Os personagens são protagonistas e seus feitos tem que ter alguma relevância no cenário, ou isso vai gerar frustração. Ao mesmo tempo, perceber que os atos dos personagens têm possibilidade de afetar profundamente a história estimula os jogadores a se envolverem mais e mais com o jogo. Um personagem secundário que foi criado por conveniência pode se tornar um elemento chave de uma intricada trama. Ou um vilao desconhecido pode ter laços antigos com alguém do grupo. Também gosto de trabalhar com o conceito do que o personagem sabe ou pensa o que sabe, e que erros podem ter consequências sérias nem sempre visíveis a curto prazo. Enfim, causa e efeito.

PopGeeks – Temáticas diferentes, como espionagem, ficção científica e fantasia medieval, exigem táticas de roteiro e condução do jogo diferentes para funcionar?

Jaime Cancela – Sim, principalmente porque há diferentes formas de abordar um tema. Quando você fala de super-heróis, estamos falando de Watchmen, Batman ou Liga da Justiça? São três tipos de histórias de super-heróis, com três estilos e velocidades diferentes. Star Trek ou Star Wars? De volta pro Futuro ou Dark? Para refletir a ideia do cenário a narração tem que seguir uma linha que reflita e transmita a imersão dos jogadores na história. Se quero jogar O Senhor dos Anéis a narrativa tem que ser grandiosa, maniqueísta e repleta de ação. Já se os personagens estão tentando evitar que o grande Chtulhu seja desperto, a história tem que ser dramática, com clima de suspense e perigo iminente, onde qualquer sombra pode significar o fim do personagem ou pior, da aventura!

PopGeeks – Que outro elemento você considera essencial em uma aventura ou campanha para manter a qualidade nos jogos?

Jaime Cancela – O narrador precisa ter confiança em si e a confiança do grupo. Em uma aventura de RPG é impossível o mestre prever tudo, principalmente a ação de UM personagem. A decisão de um grupo em geral é fácil de prever, mas sempre tem um personagem que traz um elemento novo ou uma decisão inesperada que derruba tudo o que o mestre planejou. Meu conselho é siga a música, confie em sua capacidade de desenrolar a história. Se o personagem fez algo que era inesperado mas pode ser interessante para a campanha, deixa rolar! Costumo fazer muito isso e já tive que refazer MUITAS das minhas linhas narrativas por decisões inesperadas. E não me arrependi. Por outro lado, o jogador sente confiança em seu mestre, sabendo que ele considera realmente importantes as ações de seus jogadores.

Porém, há decisões que podem custar caro. Há ocasiões em que uma determinada raça que o jogo permite, ou uma organização do cenário, ou um poder que consta no livro, pode prejudicar seriamente a campanha. Ou uma decisão na história que pode prejudicar muito a unidade do grupo de jogo. O melhor é conversar com o jogador e explicar sinceramente que isso pode atrapalhar a história e a diversão do grupo. E isso não ser bom pra ninguém.

PopGeeks – Há algo que você considera importante e que vê negligenciado por mestres ou jogadores?

Jaime Cancela – Uma característica do bom mestre de RPG que os narradores, inclusive os mais experientes, esquecem muito é generosidade. Ouça seus jogadores, conheça outros mestres e jogue com eles para ver outros estilos de narrativas e cenários. Conheça novos sistemas, nem que seja apenas por curiosidade, muitas novas idéias podem vir daí. Conheça novas pessoas, o melhor do RPG é viver aventuras e fazer amizades. Eu conheci minha esposa em uma mesa de RPG, assim como os meus melhores amigos.
E divirta-se. Sempre!

PopGeeks – Fale de sua experiência e descreva uma breve mini biografia para a reportagem.`

Jaime Cancela – Eu comecei a jogar RPG nos anos noventa. Tenho centenas de livros de regras e cenários e já mestrei e joguei jogos que a grande maioria das pessoas nunca ouviu falar. Em 2003, comecei a trabalhar com RPG demonstrando o jogo e fazendo oficinas de formação de narradores nas unidades dos CEUs para a prefeitura de São Paulo. Participei da realização dos Simpósios RPG e Educação de 2003 a 2006. Fui diretor e presidente da Associação Ludus Culturalis, organizei diversas atividades para o EIRPG, como o Desafio D&D, Quem é o Culpado, Área 51 e outras. Fui um dos organizadores do Dia D RPG e o idealizador e criador do Dia Nacional do RPG. Realizei várias dezenas de palestras, oficinas e debates de lá pra cá. Tenho meu discreto canal de YouTube, O Metagamer, trabalho com demonstração de jogos de tabuleiros, oficinas em empresas, eventos e escolas, sou casado com a Maria do Carmo, sou o orgulhoso pai da Raíssa e tenho mais amigos do que mereço.

Jaime Cancela pode ser encontrado nos principais eventos de RPG e boardgames em São Paulo e através de seu canal de YouTube, O Metagamer.

 

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