O legado de Ota, artista e editor, para muito além da Revista MAD

Faleceu na última sexta-feira, dia 24 de setembro, na Tijuca, aos 67 anos, o cartunista Otacílio Costa d’Assunção Barros, carinhosamente conhecido no meio editorial como Ota.

O artista foi encontrado sem vida em seu apartamento, na Tijuca, Zona Norte do Rio de janeiro, e deixa um legado precioso, sendo a Revista MAD a produção mais reconhecida em sua carreira, onde atuou como editor por 34 anos.

Entre as criações memoráveis do artista, o “Relatório Ota” trazia, que surgiu inicialmente nas páginas da revista Careta, da Editora Três, como uma sátira do Relatório Hite, best-seller de grande sucesso nos anos 80, e foi posteriormente editada na MAD, tratando de forma cômica temas como Drogas, Sexo, Aids, Energia Nuclear, o Rio de Janeiro e outros assuntos.

As tirinhas com os personagens Flomps, criadas entre os anos 80 e 90, e do Hospício Lelé, estas presentes em algumas edições da MAD, também estão entre algumas das produções mais conhecidas criadas pelo profissional.

Na MAD, esteve presente como artista ou editor nas quatro versões da revista. “Eu estava na Mad brasileira desde sempre. Desde que a Vecchi comprou os direitos e lançou a revista em 1974 […] Entre as revistas que eles negociavam estava a Mad, que se tornou a mais lucrativa de todas […] Então, para minha grata surpresa, um dia o Lotário me chamou na sala dele e disse: “Olha, fechei um contrato com uns americanos… o senhor deve conhecer a revista Mad, não?” E eu: “claaaaroooo!” Eu já era fã da Mad desde adolescente, comprava os pockets, e achava o máximo”, comentou Ota, em entrevista ao site República das Bananas, em 2019.

Ota retornaria como editor da revista em 1984, quando a Mad passou a ser editada pela Editora Record. Em 2000, a Editora Mythos seria a nova casa da MAD, ainda sob a batuta de Ota como editor. Em março de 2008, após dois anos fora das bancas, a MAD voltou a ser publicada, desta vez pela Panini. Ota foi convidado para sua última passagem pela publicação, desta vez como supervisor do conteúdo nacional da revista.

Em 1984, Ota publicou o livro O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro, com uma análise da obra de Zéfiro, prestigiando os ‘catecismos’ impressos nos anos 60, pela Record. Dez anos depois, em 1994, o artista foi agraciado com o prêmio de Melhor Revista Independente no Troféu HQ Mix, no Rio de Janeiro, pela criação da Revista do Ota, em 1993.

Em 2005 e 2006, assinou uma coluna sobre quadrinhos no Jornal do Brasil e começou a publicar a tira Concursino para o jornal Folha Dirigida, respectivamente. Em 2015, tornou-se o responsável pela coleção de álbuns remasterizados de Asterix pela Editora Record.

Em 2015, o artista passou a exibir as tirinhas com Bibi Polar, personagem que virou namorada do Ota quadrinizado e, um ano mais tarde, se transformou no livreto A Garota Bipolar. As edições impressas em ‘formatinho’ (similar aos gibis da Turma da Mônica) venderam aproximadamente 3000 exemplares e respondiam pelo sustento do artista nos últimos tempo.

O artista colecionou algumas polêmicas com seu humor escrachado ao longo da vida, como ele mesmo explica na entrevista já citada: “Tive problemas com várias coisas. O Dr. Mascareta era um psicanalista que comia as clientes. Quando saía como personagem nas revistas de mulher nua da Ideia Editorial não deu em nada. Saiu no JB o Eduardo Mascarenhas ficou puto e reclamou. Acabei demitido do JB por causa disso. Na Folha, o personagem não deu em nada, mas a mesma tira que deu problema no JB com o Sindicato das Secretárias, porque ele queria comer a secretária. A Preta do Leite não chegou a dar problema, mas vi que o bicho ia pegar e mudei o nome e a cor dela pra ‘Branca’ no final dos anos 90. Eu tive problemas antes dessa onda do politicamente incorreto chegar. Boa parte do que publiquei me faria ser linchado pelas feministas. A intenção não era ofender ninguém e sim zoar”, declarou.

Os Videotas – Quadrinho de 1989

 

Como editor, Ota também teve seus conflitos, como a saída da da Panini, após a edição de apenas sete edições da revistas, motivado, segundo informações, por desentendimentos editoriais.

“Eu o conheci pessoalmente na casa da Márcia Z. Ele viu os meus desenhos e disse que tinha uma sátira na MAD sobre o programa da Xuxa e queria que eu a desenhasse. Eu que já era fã de carteirinha da MAD, fiquei feliz da vida em poder ver o meu trabalho publicado numa edição da revista que eu colecionava desde o número um, quando ele a trouxe para o Brasil, na extinta editora Vecchi. Eu tenho todos os números deste período. Depois ele foi para a Record e foi lá que eu publiquei a sátira do “Xou da Xuxa”. Não fiz mais trabalho com ele, porque era chato pra car*, ficava ligando toda hora, pressionando pra entrega do trabalho. Era o seu jeito Ota ser”, comentou o ilustrado Nei Lima, em uma postagem em homenagem ao parceiro, junto à fantástica caricatura, que pode ser vista no alto desta matéria.

Em junho de 2021, três meses antes de seu falecimento, Ota passou a publicar tiras sobre o ambiente universitário no site da Faculdade Campos Elíseos. Seu trabalho editorial e humor despretensioso e quase ingênuo foram o registro de uma época que buscava romper os limites na pós-ditadura.

Uma declaração de Ota sintetiza as mudanças no país, hoje antenado para impedir certos abusos antes permitidos em nome do humor: “Boa parte do que publiquei me faria ser linchado hoje”.

Os trabalhos do artista ainda podem ser adquiridos no site The New Ota Times.

Imagem: montagem com foto de arquivo do artista com ilustração de Nei Lima.

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