Opinião: Discurso de ódio, antissemitismo e a demissão de Joe Bennett da Marvel

A demissão do ilustrador brasileiro Joe Bennett, responsável pelas artes de Immortal Hulk e outras HQs da Marvel nos últimos 25 anos, foi o grande assunto no panorama geek da semana.

Embora não tenha divulgado o motivo do afastamento do profissional, é impossível dissociar a iniciativa da editora da recente controvérsia surgida a partir das declarações do roteirista Al Ewing, que afirmou não desejar voltar a trabalhar com o desenhista.

“Um espadachim de armadura, que presumo representar Bolsonaro, segundo o comentário de Joe, massacrando pessoas minúsculas e apressadas, com dentes salientes e orelhas de rato”, narrou o escritor acerca da arte, afirmando que este não teria sido o primeiro problema com a produção visual de Joe do qual teria conhecimento.

Ewing se refere, muito provavelmente, a outra polêmica com o artista, que apareceu em fevereiro deste ano no número 43 de Immortal Hulk e sugere insultos ao povo judeu.

No quadrinho em questão, Bruce Banner aparece conversando com a funcionária de uma joalheria, enquanto preenche um cheque. Ao fundo, a janela da loja exibe uma Estrela de Davi encimada pela palavra ‘Jewery’.

O termo é pejorativo e faz alusão a adereços ou características físicas tipicamente judaicos e se torna ainda mais ofensivo quando associado ao símbolo fundamental da religião judaica, que simboliza a proteção divina contra o mal.

À ocasião, o artista desculpou-se publicamente, afirmando tratar-se de um equívoco com o idioma inglês e a escrita invertida na imagem.

“Os erros ortográficos na janela foram um erro verdadeiro, mas terrível – como eu estava escrevendo ao contrário, eu acidentalmente soletrei as palavras erradas”, explicou.

“Não tenho desculpas para a exibição da Estrela de Davi. Eu falhei em compreender como esse estereótipo poderia ser perturbador e ofensivo e, depois de ouvir todos vocês, agora entendo meu erro. Isso foi errado, ofensivo e doloroso de várias maneiras. Isso é um erro que devo admitir, e lamento a todos que magoei com isso”, comentou o desenhista em conversa com o site Bleeding Cool.

Diferentemente das desculpas apresentadas em fevereiro sobre a questão semita, Joe preferiu calar-se em relação às afirmações do roteirista de Hulk sobre a arte de cunho bolsonarista de 2017 e sobre sua recente dispensa da editora.

As opiniões de Joe Bennett sempre pareceram tender a um perfil mais conservador e direitista, como demonstrou o episódio em que comemorou publicamente a agressão sofrida pelo jornalista Glenn Greenwald em novembro de 2019. O advogado e jornalista norte-americano havia sofrido uma agressão física do também jornalista Augusto Nunes, durante a realização de um programa na Rádio Jovem Pan.

“Augusto Nunes, seu caboclo f#d#!! Esse tapa foi meu também! Devia ter dado era um soco!!”, postou em sua conta de Facebook, em apoio ao comentarista da rádio.

Após a repercussão negativa da postagem, o ilustrador voltou atrás e se desculpou com o americano, afirmando ter lançado o comentário “no calor do momento”.

“Comemorar a agressão de qualquer pessoa, ainda mais um excelente pai e um bom marido, não é motivo de qualquer orgulho ou vibração”, escreveu.

“Como artista, vivendo essencialmente da cultura e da arte, jamais concordei ou incentivei qualquer forma de violência contra qualquer pessoa”, continuou, embora a arte exaltando o “Capitão” [que pode ser vista na imagem deste artigo] sugira claramente o contrário.

É impossível discordar das afirmações do artista nas escusas a Greenwald, quando destaca que “Nenhuma visão política deve justificar ações violentas ou desumanas. Nenhum posicionamento político justifica desumanidade. Nenhum exercício de pleno, justo e regular trabalho deveria gerar perseguição, inimizade ou violência. A democracia só caminha se houver tolerância e respeito”.

Felizmente, parece não haver mais espaço no mundo atual para a intolerância e para o discurso de ódio ou, ao menos, não é possível aceitar certos ‘equívocos’ plenamente injustificáveis à luz do respeito universal.

Leia e reflita sobre suas próprias palavras, Joe Bennett. O mundo precisa de menos violência e relações mais saudáveis entre todos.

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